: Espantalho : outros afins miméticos

21 de maio de 2009

Ainda menos que. Nada de fato há, ainda… (texto sobre poesia)

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O corpo ainda quase não. O vento de Palermo sopra na direção da. Ou, o romance a novela que não inicia, que permanece suspensa por uma sucessão de prólogos (coisa de Mecedonio Fernández). O gesto que prende a arte pelo meio, que promove uma cena cotidiana onde (quase) (nada) acontece a palavra, aí assim, meio que de um tempo parado, o relato, o verso passa e fixa-se na página; a frase ancora seu casco e o texto baloiça esperando tripulante. “O homem neste momento/ rompe o deserto que chama de mar/…depois de léguas percorridas/ resta um rastro de memória/ um acontecimento”.

Como em uma onda já está movimento, o acontecimento é fixado em um quadrante, em um retrato, em um poema, quebra na página. Há um filósofo moderno que dizia de sua filosofia um acontecimento semelhante ao dos esportes que se iniciam pelo meio como surf, o vôo ou a canoagem. Os fluxos já em andamento, sem necessidade de ponto final, tampouco de cena pronta, acabada. Algo como acontece naquele texto de Clarice Lispector em que encontramos GH já procurando algo, “—–estou procurando, estou procurando.”. Poemas, narrativas muitas são cenas em movimento cuja partida ignoramos. Que importa?

O corpo é um acontecimento. Um corpo em movimento é portanto uma miríade de acontecimentos possíveis, pois haverão os choques materiais e imateriais; experiência e memória. Mas, ainda assim, (estamos cá falando de literatura) com escreveu Alain Robbe-Grillet a respeito de Raymond Roussel, “para além do que [ele] descreve, não há nada, nada do que é hábito chamar-se uma mensagem”; assim um acontecimento não necessita carregar em seu porão, uma mensagem pois o poeta poderá dizer “os meus dedos marionetes se esforçam, muito, mas não conseguem dizer nada; gaguejam, gaguejam, gaguejam. É a gagueira que escuto. E no calor deste acontecimento aqui, ou de outro, eu [por mera distração] me divirto com o vento gelado que bate na sola dos pés.” (grifo meu). O aqui é a pluralidade ou a disseminação do lugar. A possibilidade de gaguejar a escrita ao invés da fala, é a escrita a própria topologia, nela as coordenadas para encontrar o barco no imenso oceano.

Sei, ainda não fiz referência aos textos citados. Talvez não o faça, pois o que importa aqui é o acontecimento não quem (mas o quê) o produziu, pois é na linguagem que os encontramos, assim como os acidentes que possivelmente acontecerão, quando. Não choraremos pois, se não soubermos a mão que traçou esta rota de acidentes. Ao ler o livro que contém estes poemas saberemos que “ o homem seca o suor do rosto/ no braço/ futrica uma das feridas/ assoa o nariz/ olha ao seu redor/ não encontra nada// o tablado do homem parece um/ deserto/ tudo é árido, inóspito,/ ermo, desabitado/amnésico.” Gago, esquecido de si mesmo como um homem há dias nomar à deriva, com escorbuto, torpe. Esquecido como Molloy de Samuel Beckett, como o narrador de A rainha dos cárceres da Grécia de Osman Lins. Ainda assim não teremos acesso ao homem que escreve, ao sujeito. Temos pois o acontecimento da mimesis não como representação, imitação, ilustração, mas como produtora de acontecimentos. Não, não disse de quem são os poemas. Não direi. Não aqui.

O livro é composto por dez atos, numerados de zero (abre) a dez (fecha). São sequências cotidianas como as do diretor Abbas Kiarostami. As sequências são circundadas por outras em um emaranhado de cenas que compõem uma espécie de teia ou uma navegação de cabotagem. Com uma agulha (da bússola) de crochê pode-se puxa-la em qualquer ponto. Também pode ser ouvido (não olvidado) o livro como um pequeno concerto nem barroco, nem carioca, mas um concerto ilhéu. Não da Ilha da Madeira, mas da Ilha da Memória (Waly Salomão foi quem escreveu que a memória é uma ilha de edição). Pois que em uma ilha muitas coisas acontecem sem serem vistas, não quer dizer que não aconteçam, sabemos disso. Mas é isso uma escritura “ou alguma desmedida de felicidade”; uma tentativa vã de fixar o barco, mas a corrente o leva, não se encontra o ponto final, a epígrafe está entre reticências, tudo pelo meio, a vida assim, pelo meio, uma cesura, um sulco. Mas é isso um acontecimento

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Pós escrito (ora direis, ouvi o nome)

Depois de Borboletas e abacates (argos, 2000),e defender uma dissertação de mestrado em teoria da literatura na UFSC sobre O Tom de Tom Zé, o músico (Banda Repolho), cineasta, professor e poeta Demétrio Panarotto acaba de publicar Mas é isso, um acontecimento (editora da casa, 2009). Todas as citações que não estão nominadas no texto foram retiradas do livro mencionado para ajudar a compor este outro happening.

Texto publicado no Caderno de Cultura do Jornal Diário catarinense em 16 de maio de 2009.

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Domingo de páscoa sobre narrativa de Osman Lins

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A intolerância e o esquecimento são ingredientes do horror. Ao lermos um autor com atenção, ao passarmos por uma obra com vagar percebemos alguns tons que ressoam no trabalho. São movimentos que a mão do escritor repete, em uma espécie de pantomima feita ao leitor, chamando sua atenção para o problema inscrito na fabulação criada e apresentada pela escritura. Ler um texto é sempre visitar uma estância e nesta correr o risco do encontro com o fantasma que evitamos. Somos hóspedes na casa armada com palavras ou, se quisermos de outra forma, visitantes estrangeiros vagando pelas ruínas da memória.

Três hóspedes movimentam Domingo de Páscoa, última narrativa do escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978), texto trazido à tona somente em 1996 através da revista Travessia Nº33 publicada pela UFSC. O problema da hostilidade permeia a narrativa, na história de Canoas, Narcélia e Velimir Leskóvar. Canoas é uma espécie de acompanhante de Narcélia, 46 anos paraplégica e uma criatura muito intolerante. Velimir é um estrangeiro, um judeu russo que será assassinado na piscina pelos hóspedes do Hostess Hotel, onde todos estão hospedados.

Vale lembrar o que diz Jacques Derrida sobre o hóspede. Na palavra latina hostis, podemos ler tanto o hóspede quanto o hostil. O estrangeiro pode ser um hóspede, pode ser tratado com hostilidade, como estranho. São personagens que aparecem e se chocam, desenvolvem conflitos no espaço do texto, nesta hospedaria na qual permanecemos durante a leitura. O estrangeiro, no caso o russo, atualiza o problema da intolerância, do exílio e do abandono.

Osman sempre minucioso escreve uma narrativa retomando o problema da memória ou melhor, do esquecimento, encontrado em textos como os de Nove, Novena e A rainha dos cárceres da Grécia. Nada é dispensável, nenhum detalhe deve ser esqucido nos textos de Osman Lins. Narcélia é palavra quase homófona de Nicéia, nome do concílio que determina a Páscoa na tradição católica. O viajante judeu se assemelha a Andrei Rublev o pintor do filme de Tarkóvski e Canoas pode ser uma arca, que carrega segredos e deve ser destruída.

A língua é o que resta. É pela linguagem que se estabelece tanto o entendimento quanto o contrário é pela simulação que Narcélia determina o destino de Canoas, pela intolerância que Velimir Leskóvar tem sua vida sacada na piscina. Domingo de Páscoa serve par apensar a barbárie, o terror que ronda a todo instante nossas vidas, os gabinetes, as hospedarias disseminadas em cada cidade, em cada sujeito. Aprender a con-viver, a receber o estrangeiro é um problema de tolerância,mas é também uma questão do mal estar estabelecido pelas leis, pelos poderes. A páscoa do domingo é esta passagem pela qual a linguagem traça os limiares, o dia do reaparecimento de Velimir Leskóvar, o estranho que já esteve aqui entre nós, um qualquer que novamente é barbarizado na cidade, ela mesma estranha.“Estão chegando muitos hóspedes” diz Narcélia, ela que o silêncio, a possibilidade de que a solidão permita que suas pernas atrofiadas não sejam vistas, ao redor todos devem sucumbir, inclusive seu acompanhante Canoas. Nada deve restar, nada que seja resto e que possa acender sua memória. Ela quer o vácuo, o vazio. Osman L se despede com uma narrativa que põe em jogo um problema que sempre o moveu a escrever, a saber, o esquecimento no qual se encontra todo aquele que escreve ou a solidão necessária,o direito à este silencio.

Texto publicado no Caderno de Cultura do Jornal Diário Catarinense em 11 de abril de 2009.

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