: Espantalho : outros afins miméticos

31 de maio de 2009

Meu tio Macedônio

Arquivado em: Caracteres — admin @ 16:59

Este aí da foto é um tio cujo paradeiro agora não sei. meu tio macedônio, para quem conhece, perceberá a semelhança com o autor de El museo de  la novela de la eterna. Meu tio(seu nome é Aldo Fausto) é o próprio ‘recienvenido’. é a terceira vez que aparece em toda sua vida de 65 anos. aos 17, saiu da casa de meus avós e so apareceu 27 anos mais tarde. Depois azulou no tempo. reapareceu em 1990 e este ano novamente e agora deve estar em alguma cidade indo em direção ao mato grosso ou rondônia, terras onde viveu maior parte do tempo, como agricultor, caseiro, seringueiro, maquinista. é um excelente leitor. na família, acho que o único. eu estou aprendendo.

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28 de maio de 2009

Poema de circunstância

Arquivado em: Sem categoria — admin @ 12:05

zezuíno olandino, zezuíno

::[tema para melville]::

a imagem no espelho

eco eco eco

“procuro barreira e não acho

spectrum, espéculo, espécie”

‘irmão meu, mas não desce’

especiais como ola, conformes.

nível de rio, fio da faca e pouco peixe

enjoei de sua cara refletida nas escamas

no registro subcutâneo e intravenoso

[saco expulsa os peixes, convés movediço

repleto de olhos baços]

‘me multiplico ainda mais

não quero meu fantasmagongórico

ao meu lado. fantasmagoria vã, como uma rosa.

“ouço o mar ou mão em abano rápido?”

olandino viu o fantasma

não resistiu e sacou com os dentes

cada unha, unha à unha,

pra manter viva raiva raiva

olandino (assoviava o vento alongado)

“vi a vaga no reflexo da lâmina”

zezuíno olandino e olandino zezuíno

ambos fernandes. extranho extranho. nem tanto:

homo homini lupus

cara cara

vento. casco. bufa corcunda onda,

esguia faca, o peixe-o-olho-baço

eco eco de olhos dos peixes amarelando

os olhos da tripulação ainda fechados

procuravam outra imagem.

[willian wilson, disse o manoel]

zezuíno olandino -) (- olandino zezuíno

margem direita -) (-margem esquerda

[rio itajaí-açu]

talvez o rio à noite, saiba seu espelho

e afaste o barro das margens

para servir aos dois semblantes

geralmente os barcos chegam em silêncio

mas naquele, até o chaminé engasgava

engolia a seco a fumaça.

ainda algum vestígio de sangue, do acontecimento

no barbante amarrado ao cabo da faca

sábado chumbo

qual seria mais pesado:

zezuíno vivo ou zezuíno morto?

Cristiano Moreira

(A partir de um acidente ocorrido em alto mar neste mês de maio, em cuja cena, um irmão asssassina outro com uma facada no coração. Osirmãos chamavam-se Olindino Zezuíno Fernandes e ou outro, Zezuíno Olindino Fernandes. Moravam em margens opostas do rio itajaí-açu.)

23 de maio de 2009

Osman Lins em 1973

Arquivado em: Osman Lins — Tags: — admin @ 19:47

Encontrei a fonte da entrevista e data.

Osman Lins carrega essa lâmina na carne de seus textos em prosa.  Em sua poética, brilha o suor não só do homem, mas da própria letra.

Osman Lins: “meios eletrônicos são liquidificadores mentais”

Jornal do Commercio – 18 de julho de 1973
(Entrevista concedida a Alberto da Cunha Melo)

Afirmando que os meios eletrônicos de comunicação são liquidificadores mentais ou culturais, o romancista pernambucano Osman Lins, radicado há anos no sul do país, acredita ainda que “não se pode esperar que sejam muito ágeis e vigorosos os cérebros nutridos com tal dieta”. E cita um exemplo esclarecedor: “Os dentistas têm observação que, com os liquidificadores, os dentes das crianças tornaram-se mais fracos, mais vulneráveis e que aumentaram enormemente as arcadas dentárias defeituosas. Há muitas crianças que, com os liquidificadores, passaram mesmo a não mastigar. Assim é possível que uma grande parte dos seres humanos – até toda uma civilização, quem sabe? – abdique dos livros, em benefício dos meios eletrônicos de comunicação”.

Possuidor de um estilo que, aproveitando uma análise dos irmãos Campos em relação a Guimarães Rosa, é uma espécie de microcosmo, Osman Lins é um dos mais penetrantes visionários da atual ficção brasileira. Visionário não de espectros, mas de seres complexos, reais. Traduzido para o francês, alemão e inglês, Osman Lins alcançou grande repercussão na Europa com o seu livro “Nove Novena” (publicado em Paris sob o título de “Retable de Sainte Joana Carolina”). Fez parte das antologias: “Die Reiher und andere brasiliannische Erzahlungen”, Horst Erdmann Verlag, Hamburg (Trad. Curt_Meier Clason), “Moderne Brasilianische Erzahler, Walter Verlag (Trad. Carl Heupel), e “New Directions 25 (an international Anthology of Prose & Poetry) – New Directions, New York (Trad. Clotilde Wilson).

LÍNGUA PORTUGESA

Falando sobre os fatores que determinam a penetração de uma obra em língua portuguesa nos outros países, o romancista de “O fiel e a Pedra” declarou: “Normalmente, a escolha de um livro para edição no estrangeiro, seja ou não escrito em português, faz-se mediante duas condições básicas: alta qualidade literária ou boas possibilidades comerciais. Há também um tipo de livro nosso que interessa muito: o documento social ou político. Para nós, brasileiros, é em geral mais difícil o acesso a editores europeus e americanos que para os escritores de língua espanhola”.

E explica: “Isto porque todas as editoras têm leitores em espanhol e relativamente poucas as que têm leitores em português. Mas, de um modo ou de outro, vamos furando a barreira e nomes como Austran Dourado e Dalton Trevisan, infelizmente ainda não muito lidos no Brasil, já ultrapassaram fronteiras. Ainda este ano será editado na França um romance do nosso Hermilo Borba Filho”.

UNIVERSAL E REGIONAL

Confessando que não o estimula o desejo de conceituação do universal e do regional na arte, ou mais especificamente, na literatura, Osman Lins, com prudência e a segurança de seus depoimentos, declarou: “De qualquer modo, por ser muito especializada ou acadêmica, capaz de interessar apenas a um grupo restrito de pessoas, hesito em abordar este assunto numa entrevista. Eu diria apenas que “querer ou procurar ser” regional ou universal constitui erro desastroso. Talvez deva confessar, aqui, que, tendo vivido sempre intensamente a literatura, certos problemas nunca me preocuparam. Esse foi um deles. Nunca indaguei se seria ou se deveria ser regionalista ou universalista, assim como nunca me interessou saber a diferença entre novela e romance – e outros problemas paralisantes.”

LIVRO & ELETRÔNICA

McLuhan, com todas as suas distorções da história e sua técnica “poética” do “palavra por palavra” ainda continua na ordem do dia para muitos vanguardistas auto-exilados do mundo verbal, ou seja, da “Galáxia Gutenberg”. Para esses vanguardistas e para muitos leitores uma pergunta persiste: “com o extraordinário progresso dos meios eletrônicos de comunicação, conseguirão eles chegar a sucedâneos do livro? Osman Lins é dos poucos que têm uma concepção segura sobre o tema: “Sabe? Os dentistas têm observado que, com os liquidificadores os dentes das crianças tornaram-se mais fracos, mais vulneráveis e que aumentaram as arcadas dentárias defeituosas. Há muitas crianças que, com os liquidificadores, passaram mesmo a não mastigar. Assim, é possível que uma grande parte dos seres humanos – até toda uma civilização, quem sabe? – abdique dos livros, em benefício dos meios eletrônicos de comunicação. Mas os meios eletrônicos de comunicação, o que são eles?”

E, respondendo à sua própria pergunta, considera-os “liquidificadores mentais ou culturais. Não se pode esperar que sejam muito ágeis e vigorosos os cérebros nutridos com tal dieta. Por outro lado, parece-nos muito mais digna a relação leitor-livro que a relação receptor-meio eletrônico. Um livro não entra pelo seu ouvido ou pelo seus olhos. Você não é, ante o livro um ser passivo. Um livro você lê. Você é, diante do livro, alguém que age: você o conquista. Palavra a palavra, as suas páginas. Pense mais: em que outro meio encontraremos, como no livro, um campo onde a liberdade pode esplender com mais força?”

Sobre “Nove novena” um dos seus livros mais famosos diz Osman Lins: “Eu diria que, com ‘Nove Novena’, restringe-se – ou é menos aparente – a dívida que todo escritor tem para com os que o antecederam. Isto é: com ‘Nove Novena’ eu atravesso um certo limiar e conquisto uma visão mais pessoal do mundo e da própria narrativa. Aliás, eu gostaria que uma das novelas desse livro fosse mais divulgada no Recife. Enviei, recentemente, uma carta à Editora Martins comunicando que não mais desejo ter os meus livros publicados por intermédio daquela casa. Uma das razões da minha decisão é certa ausência de dinamismo na organização da empresa, coisa muito prejudicial à divulgação de uma obra literária, principalmente se esta obra não segue os figurinos já conhecidos ou se o autor não pertence aos famosos júris da TV”.

Cita, em seguida, a sua novela que gostaria de ver nas mãos dos recifenses: “Intitula-se ‘Perdidos e Achados’. Há, nessa novela, uma grande presença do Recife: narra a história de uma criança que desaparece, certa manhã de verão, na praia de Boa Viagem. Quanto a ‘Avalovara’, sendo uma obra ampla e bastante complexa, torna-se difícil de falar sobre ela numa conversa breve. Também se passa no Recife e em Olinda uma das partes do livro, a que narra a paixão – atraibuída e exaltada – do protagonista por um andrógino. Acrescento que ‘Avalovara’ é nome inventado e refere-se a um pássaro também imaginário, que surge a certa altura da obra. Esse pássaro, entre outras coisas, é um símbolo do meu romance, no qual, por assim dizer, está toda a minha experiência como escritor e como homem”.

Fonte: http://www.cafecolombo.com.br

neste site, postado peloRenato Lima em 22.05.2008 – 11:47.

22 de maio de 2009

Osman Lins no Jornal do comércio

Arquivado em: Sem categoria — Tags: — admin @ 19:33

osman-no-jornal-do-comercio Este artigo não está publicado em nenhum dos livros de coletâneas de textos esparsos de Osman Lins, Problemas Inculturais brasileiros, 1977 e Evangelho na Taba, 1979. Se alguém tiver a referência, por gentileza repasse a informação.

21 de maio de 2009

Ainda menos que. Nada de fato há, ainda… (texto sobre poesia)

Arquivado em: Fantasmas (textos) — Tags:, — admin @ 19:38

O corpo ainda quase não. O vento de Palermo sopra na direção da. Ou, o romance a novela que não inicia, que permanece suspensa por uma sucessão de prólogos (coisa de Mecedonio Fernández). O gesto que prende a arte pelo meio, que promove uma cena cotidiana onde (quase) (nada) acontece a palavra, aí assim, meio que de um tempo parado, o relato, o verso passa e fixa-se na página; a frase ancora seu casco e o texto baloiça esperando tripulante. “O homem neste momento/ rompe o deserto que chama de mar/…depois de léguas percorridas/ resta um rastro de memória/ um acontecimento”.

Como em uma onda já está movimento, o acontecimento é fixado em um quadrante, em um retrato, em um poema, quebra na página. Há um filósofo moderno que dizia de sua filosofia um acontecimento semelhante ao dos esportes que se iniciam pelo meio como surf, o vôo ou a canoagem. Os fluxos já em andamento, sem necessidade de ponto final, tampouco de cena pronta, acabada. Algo como acontece naquele texto de Clarice Lispector em que encontramos GH já procurando algo, “—–estou procurando, estou procurando.”. Poemas, narrativas muitas são cenas em movimento cuja partida ignoramos. Que importa?

O corpo é um acontecimento. Um corpo em movimento é portanto uma miríade de acontecimentos possíveis, pois haverão os choques materiais e imateriais; experiência e memória. Mas, ainda assim, (estamos cá falando de literatura) com escreveu Alain Robbe-Grillet a respeito de Raymond Roussel, “para além do que [ele] descreve, não há nada, nada do que é hábito chamar-se uma mensagem”; assim um acontecimento não necessita carregar em seu porão, uma mensagem pois o poeta poderá dizer “os meus dedos marionetes se esforçam, muito, mas não conseguem dizer nada; gaguejam, gaguejam, gaguejam. É a gagueira que escuto. E no calor deste acontecimento aqui, ou de outro, eu [por mera distração] me divirto com o vento gelado que bate na sola dos pés.” (grifo meu). O aqui é a pluralidade ou a disseminação do lugar. A possibilidade de gaguejar a escrita ao invés da fala, é a escrita a própria topologia, nela as coordenadas para encontrar o barco no imenso oceano.

Sei, ainda não fiz referência aos textos citados. Talvez não o faça, pois o que importa aqui é o acontecimento não quem (mas o quê) o produziu, pois é na linguagem que os encontramos, assim como os acidentes que possivelmente acontecerão, quando. Não choraremos pois, se não soubermos a mão que traçou esta rota de acidentes. Ao ler o livro que contém estes poemas saberemos que “ o homem seca o suor do rosto/ no braço/ futrica uma das feridas/ assoa o nariz/ olha ao seu redor/ não encontra nada// o tablado do homem parece um/ deserto/ tudo é árido, inóspito,/ ermo, desabitado/amnésico.” Gago, esquecido de si mesmo como um homem há dias nomar à deriva, com escorbuto, torpe. Esquecido como Molloy de Samuel Beckett, como o narrador de A rainha dos cárceres da Grécia de Osman Lins. Ainda assim não teremos acesso ao homem que escreve, ao sujeito. Temos pois o acontecimento da mimesis não como representação, imitação, ilustração, mas como produtora de acontecimentos. Não, não disse de quem são os poemas. Não direi. Não aqui.

O livro é composto por dez atos, numerados de zero (abre) a dez (fecha). São sequências cotidianas como as do diretor Abbas Kiarostami. As sequências são circundadas por outras em um emaranhado de cenas que compõem uma espécie de teia ou uma navegação de cabotagem. Com uma agulha (da bússola) de crochê pode-se puxa-la em qualquer ponto. Também pode ser ouvido (não olvidado) o livro como um pequeno concerto nem barroco, nem carioca, mas um concerto ilhéu. Não da Ilha da Madeira, mas da Ilha da Memória (Waly Salomão foi quem escreveu que a memória é uma ilha de edição). Pois que em uma ilha muitas coisas acontecem sem serem vistas, não quer dizer que não aconteçam, sabemos disso. Mas é isso uma escritura “ou alguma desmedida de felicidade”; uma tentativa vã de fixar o barco, mas a corrente o leva, não se encontra o ponto final, a epígrafe está entre reticências, tudo pelo meio, a vida assim, pelo meio, uma cesura, um sulco. Mas é isso um acontecimento

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Pós escrito (ora direis, ouvi o nome)

Depois de Borboletas e abacates (argos, 2000),e defender uma dissertação de mestrado em teoria da literatura na UFSC sobre O Tom de Tom Zé, o músico (Banda Repolho), cineasta, professor e poeta Demétrio Panarotto acaba de publicar Mas é isso, um acontecimento (editora da casa, 2009). Todas as citações que não estão nominadas no texto foram retiradas do livro mencionado para ajudar a compor este outro happening.

Texto publicado no Caderno de Cultura do Jornal Diário catarinense em 16 de maio de 2009.

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Domingo de páscoa sobre narrativa de Osman Lins

Arquivado em: Fantasmas (textos) — Tags: — admin @ 19:15

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A intolerância e o esquecimento são ingredientes do horror. Ao lermos um autor com atenção, ao passarmos por uma obra com vagar percebemos alguns tons que ressoam no trabalho. São movimentos que a mão do escritor repete, em uma espécie de pantomima feita ao leitor, chamando sua atenção para o problema inscrito na fabulação criada e apresentada pela escritura. Ler um texto é sempre visitar uma estância e nesta correr o risco do encontro com o fantasma que evitamos. Somos hóspedes na casa armada com palavras ou, se quisermos de outra forma, visitantes estrangeiros vagando pelas ruínas da memória.

Três hóspedes movimentam Domingo de Páscoa, última narrativa do escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978), texto trazido à tona somente em 1996 através da revista Travessia Nº33 publicada pela UFSC. O problema da hostilidade permeia a narrativa, na história de Canoas, Narcélia e Velimir Leskóvar. Canoas é uma espécie de acompanhante de Narcélia, 46 anos paraplégica e uma criatura muito intolerante. Velimir é um estrangeiro, um judeu russo que será assassinado na piscina pelos hóspedes do Hostess Hotel, onde todos estão hospedados.

Vale lembrar o que diz Jacques Derrida sobre o hóspede. Na palavra latina hostis, podemos ler tanto o hóspede quanto o hostil. O estrangeiro pode ser um hóspede, pode ser tratado com hostilidade, como estranho. São personagens que aparecem e se chocam, desenvolvem conflitos no espaço do texto, nesta hospedaria na qual permanecemos durante a leitura. O estrangeiro, no caso o russo, atualiza o problema da intolerância, do exílio e do abandono.

Osman sempre minucioso escreve uma narrativa retomando o problema da memória ou melhor, do esquecimento, encontrado em textos como os de Nove, Novena e A rainha dos cárceres da Grécia. Nada é dispensável, nenhum detalhe deve ser esqucido nos textos de Osman Lins. Narcélia é palavra quase homófona de Nicéia, nome do concílio que determina a Páscoa na tradição católica. O viajante judeu se assemelha a Andrei Rublev o pintor do filme de Tarkóvski e Canoas pode ser uma arca, que carrega segredos e deve ser destruída.

A língua é o que resta. É pela linguagem que se estabelece tanto o entendimento quanto o contrário é pela simulação que Narcélia determina o destino de Canoas, pela intolerância que Velimir Leskóvar tem sua vida sacada na piscina. Domingo de Páscoa serve par apensar a barbárie, o terror que ronda a todo instante nossas vidas, os gabinetes, as hospedarias disseminadas em cada cidade, em cada sujeito. Aprender a con-viver, a receber o estrangeiro é um problema de tolerância,mas é também uma questão do mal estar estabelecido pelas leis, pelos poderes. A páscoa do domingo é esta passagem pela qual a linguagem traça os limiares, o dia do reaparecimento de Velimir Leskóvar, o estranho que já esteve aqui entre nós, um qualquer que novamente é barbarizado na cidade, ela mesma estranha.“Estão chegando muitos hóspedes” diz Narcélia, ela que o silêncio, a possibilidade de que a solidão permita que suas pernas atrofiadas não sejam vistas, ao redor todos devem sucumbir, inclusive seu acompanhante Canoas. Nada deve restar, nada que seja resto e que possa acender sua memória. Ela quer o vácuo, o vazio. Osman L se despede com uma narrativa que põe em jogo um problema que sempre o moveu a escrever, a saber, o esquecimento no qual se encontra todo aquele que escreve ou a solidão necessária,o direito à este silencio.

Texto publicado no Caderno de Cultura do Jornal Diário Catarinense em 11 de abril de 2009.

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