A intolerância e o esquecimento são ingredientes do horror. Ao lermos um autor com atenção, ao passarmos por uma obra com vagar percebemos alguns tons que ressoam no trabalho. São movimentos que a mão do escritor repete, em uma espécie de pantomima feita ao leitor, chamando sua atenção para o problema inscrito na fabulação criada e apresentada pela escritura. Ler um texto é sempre visitar uma estância e nesta correr o risco do encontro com o fantasma que evitamos. Somos hóspedes na casa armada com palavras ou, se quisermos de outra forma, visitantes estrangeiros vagando pelas ruínas da memória.
Três hóspedes movimentam Domingo de Páscoa, última narrativa do escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978), texto trazido à tona somente em 1996 através da revista Travessia Nº33 publicada pela UFSC. O problema da hostilidade permeia a narrativa, na história de Canoas, Narcélia e Velimir Leskóvar. Canoas é uma espécie de acompanhante de Narcélia, 46 anos paraplégica e uma criatura muito intolerante. Velimir é um estrangeiro, um judeu russo que será assassinado na piscina pelos hóspedes do Hostess Hotel, onde todos estão hospedados.
Vale lembrar o que diz Jacques Derrida sobre o hóspede. Na palavra latina hostis, podemos ler tanto o hóspede quanto o hostil. O estrangeiro pode ser um hóspede, pode ser tratado com hostilidade, como estranho. São personagens que aparecem e se chocam, desenvolvem conflitos no espaço do texto, nesta hospedaria na qual permanecemos durante a leitura. O estrangeiro, no caso o russo, atualiza o problema da intolerância, do exílio e do abandono.
Osman sempre minucioso escreve uma narrativa retomando o problema da memória ou melhor, do esquecimento, encontrado em textos como os de Nove, Novena e A rainha dos cárceres da Grécia. Nada é dispensável, nenhum detalhe deve ser esqucido nos textos de Osman Lins. Narcélia é palavra quase homófona de Nicéia, nome do concílio que determina a Páscoa na tradição católica. O viajante judeu se assemelha a Andrei Rublev o pintor do filme de Tarkóvski e Canoas pode ser uma arca, que carrega segredos e deve ser destruída.
A língua é o que resta. É pela linguagem que se estabelece tanto o entendimento quanto o contrário é pela simulação que Narcélia determina o destino de Canoas, pela intolerância que Velimir Leskóvar tem sua vida sacada na piscina. Domingo de Páscoa serve par apensar a barbárie, o terror que ronda a todo instante nossas vidas, os gabinetes, as hospedarias disseminadas em cada cidade, em cada sujeito. Aprender a con-viver, a receber o estrangeiro é um problema de tolerância,mas é também uma questão do mal estar estabelecido pelas leis, pelos poderes. A páscoa do domingo é esta passagem pela qual a linguagem traça os limiares, o dia do reaparecimento de Velimir Leskóvar, o estranho que já esteve aqui entre nós, um qualquer que novamente é barbarizado na cidade, ela mesma estranha.“Estão chegando muitos hóspedes” diz Narcélia, ela que o silêncio, a possibilidade de que a solidão permita que suas pernas atrofiadas não sejam vistas, ao redor todos devem sucumbir, inclusive seu acompanhante Canoas. Nada deve restar, nada que seja resto e que possa acender sua memória. Ela quer o vácuo, o vazio. Osman L se despede com uma narrativa que põe em jogo um problema que sempre o moveu a escrever, a saber, o esquecimento no qual se encontra todo aquele que escreve ou a solidão necessária,o direito à este silencio.
Texto publicado no Caderno de Cultura do Jornal Diário Catarinense em 11 de abril de 2009.